Editors: «Em estúdio sabemos exatamente aquilo que as pessoas vão sentir ao vivo»

  

6 EDITORS Rahi Rezvani 2017

Hoje é Dia E, de Editors. A banda britânica que já tocou várias vezes em Portugal lança hoje o seu sexto álbum, no qual reflete a agressividade que domina os tempos modernos. Ainda há fé na Humanidade, é certo, mas também muitos podres a apontar ao ritmo do seu rock musculado. O baterista Ed Lay conta-nos em primeira mão o que esperar deste registo.

Consideram que Violence é o vosso álbum mais realista?
No sentido em que provavelmente reflete o mundo em que vivemos mais do que tudo aquilo que já fizemos, creio que sim. Basta ver as notícias: a natureza humana está à beira de se tornar bastante agressiva, num processo vertiginoso. E essa agressividade e fisicalidade reflete-se no álbum.

Foi fácil reduzir o conceito do disco a uma só palavra título?
Até que foi porque era algo omnipresente, de que já tínhamos a consciência. O título encapsula os problemas de todas pessoas. Na forma como as canções se agrupam parece que há algo em comum borbulhando à superfície, algo que não é completamente óbvio.

Garantem que este não é um álbum político. Aqui «a vida imita a arte» ou vice-versa?
Não é um álbum político mas reflete o mundo. A nossa arte mudou sem dúvida, mas não pregamos sermões. Vivemos tempos muito estranhos. Por isso, por um lado quisemos escapar a isso mas também criar algo que refletisse essa mudança. Sim, aqui a arte imita a vida mas ao contrário também é verdade.

Apesar de todo o presente cenário negro, como artistas e indivíduos ainda têm fé na Humanidade?
Sou constantemente surpreendido com aquilo que as pessoas de quem gosto e admiro fazem das suas vidas. Há uns tempos estivemos num campo de refugiados sírios no norte da Grécia e vimos em primeira mão pessoas cheias de humanismo e cujo trabalho deve ser louvado. As suas vidas fazem a diferença. Afetou-nos a forma como as pessoas lutam diariamente para sobreviver e o modo como há sempre alguém disposto a ajudar. Por isso sim, ainda temos uma certa parcela de fé na Humanidade.

Sentem que enquanto artistas têm a responsabilidade de mostrar essa realidade ao público?
Não apenas enquanto artistas mas também como indivíduos. Não vamos propriamente para o terreno mas fazemo-lo através da nossa música, na esperança de que as pessoas ouçam aquilo que temos para lhes dizer.

4 EDITORS Rahi Rezvani 2017

 

A cada disco mostraram uma nova sonoridade e mesmo dentro de cada um dos vossos discos há estilos sonoros diferentes. Fazem isso para surpreender o público ou para testar os vossos próprios limites?
Sem dúvida que é para nos testarmos, para que as coisas continuem a ser interessantes e possamos continuar a fazer aquilo de que gostamos. Estamos numa posição muito confortável: tocamos juntos, somos amigos, trabalhamos em criação artística, que é um ofício fantástico para se ter.

Porque é que escolheram Magazine para primeiro single?
Pareceu-nos que resumia bem o disco, que refletia numa canção de 3 minutos o que quisemos expressar. Foi feita há muito tempo. Trabalhámos nela com a nossa anterior formação mas então não resultou. Passados dois ou três anos, sentimos que já fazia sentido neste grupo de canções. A chave deste disco é que todas as canções estão interligadas, não literalmente, mas em termos de personalidade. É uma boa introdução para o resto do disco, para a moldura psicológica do álbum. Ao longo dos anos talvez tenhamos confundido e, com isso, alguns fãs. Mas desta feita acertámos.

Já se deram contaram que já passaram 15 anos desde a formação da banda?
Podes crer. Neste disco, estamos mais coesos mas não somos, nem nunca seremos, músicos perfeitos. Simplesmente tentamos encontrar canções que nos entusiasmem, que nos façam refletir, bem como a oportunidade de tocá-las ao vivo. Isso é sem dúvida refrescante.

Consideram-se mais uma banda de estúdio ou de palco?
O segredo da nossa carreira é que conseguimos ser ambas as coisas com relativo sucesso. Às vezes, em estúdio, sabemos exatamente aquilo que as pessoas vão sentir ao vivo e aquilo que vai resultar em palco. A isso chama-se experiência. Após tocar para milhares de pessoas aprende-se aquilo que atrai a sua atenção, aquilo que funciona. Estamos ansiosos pela próxima digressão europeia. Mesmo de depois de já termos tocado em tantas cidades nunca nos fartamos. Aqui e ali é um pouco cansativo fisicamente mas temos a oportunidade de conhecer muitos sítios e isso é sempre excitante. O novo espetáculo é grandioso, temos uma nova produção e estamos ansiosos por mostrá-la.

VIOLENCE cover

 

O que nos podes contar sobre a cover art do álbum?
É absolutamente linda. Foi feita pelo nosso colaborador de há já alguns anos, o Rahi Rezvani. Confiamos nele. Há uma confiança mútua, aliás. É como se ele fizesse parte da banda pois através do seu trabalho expressamo-nos esteticamente para além de musicalmente. Inicialmente ele tinha feito um desenho e só depois nos mostrou fotografias ilustrando os desenhos. Ficámos maravilhados. Pensámos que a inclusão do seis romano (VI) na palavra Violence poderia ser um pouco "pirosa" mas decidimos avançar, pois se não acrescentássemos um pouco de humor não seríamos humanos.