O ontem e o hoje da mudança

  

 

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Os exemplos do papel ativo dos estudantes na transformação política e social são diversos e globais. Qual a explicação para esta ligação? E como é feita hoje a ação de mudança?

Quando registamos o impacto social e político dos estudantes no mapa-mundo, os alfinetes que colocamos espalham-se pelo globo. Vão da China (1989) ao Chile (2011), passam pelo Irão (1999), e não esquecem Portugal (1962, 1969 ou 1992 por exemplo). Por todo o Mundo, ao longo da História, estes eventos parecem dar forma à frase do especialista em educação, Stpehen Murgatroyd: “a voz dos estudantes é a estrada para a mudança”. 

O que pode explicar esta ligação? Para o Presidente da Federação Académica de Lisboa (FAL), João Rodrigues, a explicação pode estar nas características normalmente associadas à juventude – “a ousadia, a coragem e a irreverência”. Para este dirigente, em qualquer contexto político, os estudantes são “uma força motriz pela expectativa de mudança”, ou seja, pela possibilidade de “construir – e viver – um futuro melhor”.

João Rodrigues ilustra o seu argumento com um exemplo recente: “no Zimbabwe, por exemplo, as primeiras forças que foram para a rua, pedindo a demissão de Robert Mugabe, foram os estudantes – por quererem um futuro diferente”.

Também o Presidente da Federação Académica do Porto (FAP), João Pedro Videira, descreve os jovens – em particular os estudantes – como “um dos grandes agentes de transformação política e social”. Por norma, num mundo em constante transformação e desenvolvimento, acrescenta, “são os estudantes que mais rapidamente se adaptam a qualquer cenário – conseguem, com os mesmos ingredientes, fazer algo diferente e inovador, com capacidade de alargar horizontes”.

Para João Pedro Videira, os estudantes assumem-se como “o grande motor de transformação”, tendo mesmo sido “os principais responsáveis pelo enorme progresso social do século XX”.

Ambos os dirigentes estudantis destacam, neste âmbito e em Portugal, as conquistas inerentes às crises académicas de 1962 (Lisboa) e 1969 (Coimbra). Fenómenos que, sustenta João Rodrigues, “cumpriram um papel na renovação democrática, na altura do Estado Novo”. Este “marco na história dos Estudantes”, destaca João Pedro Videira, juntamente com a mobilização de muitos estudantes para a Guerra Colonial, “acabou inclusive por precipitar o 25 de Abril de 1974”.

E o presente?
Olhando o passado da ação estudantil em Portugal, encontramos outros exemplos, ligados ao sector da Educação: da contestação à Prova Geral de Acesso, em 1992, passando pela oposição à subida do valor das propinas. Mais recentemente, na altura da intervenção da troika em Portugal, destaca João Rodrigues, “houve também uma reivindicação estudantil que conseguiu fazer regredir certas medidas”.

Neste momento, explica o presidente da FAL, “os estudantes olham para a educação como um mecanismo de desenvolvimento do país e, quando consideram que ele pode estar a ser hipotecado, atuam”. Exemplo disso é o movimento recente Rumo à Propina Zero, composto por mais de 30 associações e federações académicas e que advoga a gratuitidade do Ensino Superior.

A reivindicação, acrescenta, não é feita apenas através das ações de rua – “esse é um direito que não deve ser afastado, quando a componente negocial não resultou”. Relativamente ao peso desta componente negocial, o presidente da Federação Nacional de Associações de Estudantes do Ensino Superior Politécnico (FNAEESP), João Cardoso, considera que ocorreu “uma mudança de atuação que transformou as ações de rua em ações de diálogo”, uma vez que “não tem sido necessário demonstrar a força dos estudantes, no seu todo, junto dos agentes políticos”.

Também João Pedro Videira considera que, hoje, as formas de atuação são diferentes. As sucessivas revoluções tecnológicas, explica, obrigam a uma resposta imediata a qualquer situação que possa ocorrer. Estas novas formas de atuação passam, por exemplo, pelas redes sociais. “A sociedade, acaba por encontrar novas fazer de se fazer ver e ouvir – são os jovens e os estudantes aqueles que poderão mais facilmente interpretá-las”, conclui.

No mesmo sentido, João Rodrigues considera “que existe um critério de mobilização diferente do que existia há duas ou três gerações”. Também aqui a evolução desempenha um papel importante, existindo novos mecanismos de participação – como questionários ou orçamento participativos – que ajudam a uma melhor representação das necessidades dos estudantes.

A mesma opinião é defendida pelo presidente da FNAEESP, que descreve “uma alteração do paradigma de reivindicação”. Hoje, os estudantes “comunicam com maior facilidade, graças à evolução digital e é muito mais fácil perceber o que está e o que não está bem, do ponto de vista dos dirigentes estudantis”.

E haverá um menor interesse nos estudantes em defender os seus direitos? João Rodrigues “rejeita paternalismos”. “Não acredito que a mobilização se tenha perdido, no que toca às questões fraturantes”, realça, concluindo: “se existe uma sociedade mais individualista, isso deve ser combatido numa lógica de consciencialização e nunca de imposição”.