Foi no Funchal que começaram a banda. Como é que a música vos juntou? 

João Rodrigues (JR): Eu, o Guilherme e mais dois outros amigos que, entretanto, já saíram, começámos a banda em 2013. Entretanto, juntou-se o Francisco Sousa, o Lourenço Gomes e o Diogo Góis. Começámos a banda porque andávamos todos na mesma turma e cada um tocava um instrumento diferente. A ideia foi, “bora fazer qualquer coisa?”. Começámos a tocar covers de várias bandas que estavam na berra na altura: Kings of Leon, The Kooks, Arctic Monkeys. Depois começámos a escrever as nossas primeiras músicas ainda em inglês e fomos tentando cada vez mais até que estamos aqui. 

Guilherme Gomes (GG): Sim, foi um processo longo e gradual até à explosão deste ano [2025]. 

 
Depois, entram no Ensino Superior e vêm para o Portugal Continental. Foi difícil aliar os estudos e esta paixão?

JR: Sinto que na altura ainda estávamos numa fase em que os estudos eram a prioridade, então demos prioridade à faculdade. Íamos tocando quando conseguíamos, dando os concertos que conseguíamos. Só a partir do segundo álbum, apesar de ainda estarmos a trabalhar, é que começámos a pensar nisto como uma alternativa mais viável e a esforçar-nos mais para isso. E, sim, conseguimos conciliar bem as duas coisas. Acho que foi uma necessidade conseguir conciliá-las. 

 

 

 
E como é que foram os primeiros passos de uma banda da ilha da Madeira no mundo da música em Portugal Coninental?

GG: Sendo da Madeira acho que há uma dificuldade extra, que é o facto de virmos para cá sozinhos e não termos, pelo menos, alguns contactos que nos pudessem levar a certas pessoas ou a certos sítios. Ou seja, todo esse processo de começar a tocar e a pôr o nosso nome na rua foi mais demorado. Tivemos de ter mais paciência, porque simplesmente não conhecíamos ninguém que nos pudesse facilitar ou ajudar com isso. 

JR (interrompe): Acho que é importante referir uma outra banda madeirense, os Barbante, que tinham passado exatamente o mesmo que nós. Ajudaram-nos com algumas dicas e até na logística, como ensaiar, porque eles tinham passado pela mesma coisa. Alguns dos primeiros concertos que demos cá em Lisboa foi a abrir para eles no Music Box. Esse empurrão contou muito para nós. 

 


«[...] uma das mais valias das nossas canções, ou se calhar o que se destaca, são as letras»

Começaram como Man on the Couch e depois transformaram-se nos NAPA. Faziam covers e escreviam em inglês, passando depois a escrever em português. Sentem que esta nova roupagem saiu naturalmente? 

GG: Saiu naturalmente. Foi um clique. Quando comecei a escrever em português, antes de gravar o primeiro álbum, senti-me mais livre a expressar o que eu queria dizer e mais criativo. Pelo menos tenho mais coisas para dizer em português do que em inglês. Penso que uma das mais-valias das nossas canções são as letras. Por exemplo, o “Deslocado”, acho que vive muito dessa mensagem que passa. Se nunca tivesse mudado para escrever em português, essa música em inglês não ia ter sentido nenhum. 

Não existe a possibilidade, ou interesse, de alguma vez voltar a explorar temas em inglês?

GG:  Não, não digo que não haja a possibilidade. Há sempre portas abertas para o fazer em inglês, francês... 

Lourenço Gomes (LG): Há artistas muito bons que se conseguem se expressar em várias línguas. Por exemplo, a Maro é um grande exemplo disso. O Rodrigo Amarante, que canta em português, inglês, francês. Há sempre esse caminho em explorar várias línguas. 

GG: Sim, acho que até me pode dar, sei lá, uma vontade de escrever uma música em inglês. Eu acho que isso é tudo possível. Até a Rosalía recentemente editou um álbum com 13 línguas diferentes, por isso nós vamos... 

JR: Editar com 14 (risos). 

GG: Só para chatear. 

LG: Com os 14 sotaques da Madeira

GG: Exato. Isso era um conceito (risos). 

 

 

 

 

Lidaram com reações muito díspares ao tema que levaram ao Festival da Canção, “Deslocado”. Como foi lidar com essa exposição inicialmente?

GG: Não foi muito fácil porque também não era algo a que estávamos habituados. Nós, antes do Festival da Canção, tínhamos um público de nicho, que gostava bastante das nossas canções, ia aos concertos e sabia as letras. Estávamos habituados a quase zero hate. Agora, quando se entra num concurso destes, há pessoas que não gostam do que nós vamos fazer e aprendemos isso da forma mais direta possível. 

JR: Eu acho que há um ponto que jogou a nosso favor, que é o facto de sermos amigos todos juntos fora disto e de conseguirmos separar as coisas e até rir delas. Tipo “pá, olha o que este disse”. 

Francisco Sousa (FS): Sim, houve muito hate. Não era propriamente à música, mas mais ao enquadramento no festival. Acho que nos passou tudo um bocado ao lado e ainda nos rimos de algumas das coisas que foram aparecendo online. 

 
A música ficou viral. Sentem que o vosso tema uniu aqueles que, tal como vocês, estão “deslocados” da sua terra natal?

GG: Sim, essa foi a razão principal para a música ficar viral: a identificação com a letra e com a canção. Não há deslocados só em Portugal, há no mundo inteiro e isso viu-se também pelo quanto esta música viajou. Foi a quase todos os países do mundo, onde muitos se identificaram com esse sentimento, principalmente num mundo tão globalizado como este. Há muita gente que sente isso na pele e acertamos ali numa receita perfeita que tocou no coração das pessoas, falando, lá está, da nossa história específica. Às vezes, é bom cantar sobre nós, porque temos muito mais em comum do que pensamos. 

 

 

Depois da Eurovisão, tinham 1,8 milhões de ouvintes mensais no Spotify. Numa entrevista, o João disse “se conseguirmos reter metade disso, já é uma vitória enorme”. Agora que estão nos 3 milhões de ouvintes, as vossas expectativas foram superadas?

JR: Claro que para nós é fantástico ter tanta gente a ouvir-nos. Nós estamos a viver este momento bom, com exposição e vamos tentar aguentá-lo o máximo possível. Até porque temos sorte de ter tanta gente a ouvir-nos, estando prestes a lançar o terceiro álbum. Para nós, vai ser fantástico que esses números depois se traduzam em alguma coisa. 

LG: E também acho que nós não vemos isso como uma garantia. Sabemos também que é algo que pode estar só a acontecer uma vez. Acho que não vamos ficar desiludidos ou tristes se não for para sempre 3 milhões de ouvintes. 

 

Mencionaram o terceiro álbum. Já têm ideia de quando o vão lançar? Podem revelar alguma coisa?  

JR: Como dissemos, são 14 línguas. (risos)

GG: E 30 estilos diferentes. (risos)

FS: Não temos datas específicas, estamos a trabalhar nisso ativamente, vamos gravar nos próximos tempos, mas datas concretas ainda não existem.  

LG: Sim, mas o que podemos garantir é que vai ser em 2026.

Por fim, quando chegar a altura de fazer concerto na vossa ilha, o estádio dos Barreiros é o palco indicado?  

FS: Se for, tem que ser nos Barreiros. Quem sabe, um dia enchemos o estádio. 

JR: Era fantástico. 

 

NAPA e Jovem Dionísio lançam "Amor de Novo"


Nova música que junta as bandas portuguesa e brasileira foi lançada na última sexta-feira, 7 de novembro.