Em 2024, pela primeira vez, a percentagem de tráfego de Internet gerado por bots ultrapassou o realizado por humanos. Os dados são citados pela Forbes a partir da investigação da empresa de cibersegurança Imperva, que justifica este aumento com “o crescimento dos Large Language Models (LLM’s), que simplificaram a criação e utilização de bots para fins maliciosos”.
A influência da Inteligência Artificial (IA) não se fica apenas por esta automação, tendo também impacto nos conteúdos que consumimos online. Como refere a Rádio Renascença, num artigo de fevereiro de 2026, “o conteúdo gerado por IA e bots ultrapassou o conteúdo gerado por humanos na Internet”.
Ódio online. A internet está zangada. Porquê?

Cada vez mais, partilhamos o espaço online com trolls, haters e bullies que recorrem a linguagem agressiva e, por vezes, de ódio. De onde vem esta raiva? E como devemos reagir?
O impacto das tecnologias de IA na Internet tem levado a que uma teoria vista inicialmente como conspirativa seja apontada como uma ideia que simboliza esta alteração nas dinâmicas online. Como escreve a BBC, “Antes vista como uma conspiração, a Teoria da Internet Morta (ver caixa) reflete a ansiedade generalizada sobre conteúdos gerado por IA e o seu impacto na autenticidade online”. “Artigos escritos por IA, publicações com spam e desinformação têm contribuído para os receios que o conteúdo criado por humanos esteja a ser esmagado”.
O CEO da Open AI, a empresa que detém o ChatGPT, Sam Altman, escreveu no final de 2025 sobre este tema, partilhando que, embora “nunca tenha encarado a Teoria da Internet Morta de forma assim tão séria”, haveria sinais que “existem mesmo muitas contas de Twitter [X] que são geridas por LLM’s”. “Tens toda a razão! Essa observação não é apenas inteligente — mostra que estás a operar a um nível mais elevado”, respondeu um utilizador com ironia, imitando o tom do ChatGPT.
A origem da teoria
Foi no final da década de 2010 que a Teoria da Internet Morta começou a surgir em fóruns como o 4chan. A ideia originalmente defendida era de que a Internet teria “morrido” por volta de 2016, quando o conteúdo gerado por Inteligência Artificial começou a dominar resultados de pesquisa e feeds de redes sociais.
Realidade ou conspiração?
O Consórcio Europeu para a Investigação Política considera que a Teoria da Internet Morta, “em tempos classificada como uma fantasia paranóica, oferece agora um quadro que, de forma perturbadora, é útil para entender as políticas digitais”. “Embora a sua premissa seja especulativa, a ideia de que a esfera pública tem sido cada vez mais automatizada é profética”, escreve Mimi Mih?ilescu, investigadora especialista na ligação entre política e cultura da Internet.

A mesma ideia é defendida pelo linguista Adam Aleksic à revista Time. “[A teoria] costumava ser uma ideia lunática e marginal, mas está a parecer cada vez mais real”, destaca o especialista, sublinhando como os efeitos desta evolução são bem reais: “Temos uma falha na perceção nos Estados Unidos da América em que as pessoas pensam que as ideias das outras pessoas são mais extremas do que realmente são – isso é psicose de IA em larga escala”.
«O risco não é que IA altere o resultado das eleições, é que desgaste as fundações da deliberação democrática»
Mimi Mih?ilescu, investigadora na área da ligação entre política e cultura da Internet
Exemplos como a influência de bots maliciosos no referendo do Brexit e nas eleições norte-americana, em 2016, são destacados por Mimi Mih?ilescu como exemplos de como as máquinas têm impacto na esfera pública “simulando comunicação democrática”. Desde então, sublinha, as dinâmicas evoluíram e os modelos de LLM’s são utilizados para criar afirmações políticas falsas, imagens falsificadas e desinformação coordenada.
Contudo, destaca a especialista, nas eleições norte-americanas de 2024, “o apocalipse não se materializou”. Isto não significa, contudo, que a desinformação criada por IA não cause danos, mas significa que “podemos estar a sobrestimar o seu poder persuasivo direto e a subestimar a sua capacidade para corromper a confiança nas instituições”. “O risco não é que IA altere o resultado das eleições, é que desgaste as fundações da deliberação democrática”, conclui.






